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Climatério: Uma oportunidade para construir uma nova vida

Com o aumento da expectativa de vida, a maioria das mulheres viverá mais de um terço de suas vidas após a menopausa. Portanto, o conhecimento e a abordagem correta das mudanças que ocorrem na meia-idade têm se tornado cada vez mais importantes.

A idade média da ocorrência da menopausa nas mulheres da América Latina é de 48,6 anos, mas os sinais do climatério podem se manifestar durante vários anos antes que ocorra a menopausa. Durante o climatério, os hormônios produzidos pelos ovários (estrogênio e progesterona) vão progressivamente deixando de ser fabricados. Nesta fase, a diminuição desses hormônios faz com que os ciclos menstruais se tornem irregulares, até cessarem completamente.

As oscilações hormonais que ocorrem no climatério podem levar, inicialmente, às irregularidades menstruais, à piora da tensão pré-menstrual, a ondas de calor, variações do humor, distúrbios no sono, depressão, nervosismo, ressecamento vaginal e alterações da libido, além de outros sintomas como a incontinência urinária. A longo prazo, a falta de hormônios femininos pode levar a alterações que não produzem sintomas imediatos, mas que têm conseqüências graves: os ossos ficam mais porosos e frágeis, podendo levar à osteoporose. Esta condição leva ao encurvamento da coluna e ao aumento do risco de fraturas, principalmente nos quadris. Aumentam também as gorduras que circulam no sangue e que se depositam na parede das artérias, podendo levar à aterosclerose, o que aumenta o risco de doenças cardiovasculares como infartos, “derrames” cerebrais e hipertensão.

A meia-idade não é uma fase fácil para a maioria das mulheres. Além das alterações hormonais e suas conseqüências, elas se confrontam com o sentido da perda da juventude e da capacidade reprodutiva. Deparam-se com a independência dos filhos, a velhice dos pais, em geral acompanhada de doenças e de sua morte, as doenças ou perda do cônjuge, e as mudanças na própria carreira profissional e na do cônjuge.

A atitude frente a esta fase de transição pode ter um enorme impacto sobre a qualidade da outra metade da vida. Como em qualquer período crítico o importante é avaliar, entender e assumir as transformações que estão ocorrendo. As mudanças são semelhantes às que se processam na adolescência, com a grande diferença de que no climatério as mulheres, já maduras, estão em geral mais conscientes, autoconfiantes e experientes. Se estas mudanças são enfrentadas com flexibilidade, elas podem levar ao crescimento e ao fortalecimento individual. É uma oportunidade de reflexão e tomada de consciência da própria capacidade e responsabilidade para fazer escolhas, ao invés de esperar pelo destino ou por alguém que possa fazê-lo. Diz o psicólogo e poeta Volber de Alvarenga em “Ninguém”:

Ninguém virá
Me acolher
Ou me legitimar
Por tudo que sou
Quero
Ou penso
Só eu
Posso fazer por mimO que precisar
Ser feito
E se acaso
esse alguém vier
por mim essas coisas fizer
a minha vida não será
minha
nem meu será
o meu caminho
serei apenas
sombra desse alguém
sem vida
sem rumo
sem ninguém.

Embora a responsabilidade pelas decisões de vida sejam inteiramente pessoais, nesta fase, mais do que nunca, as ligações afetivas e o convívio com outras mulheres, boas e amigas, para compartilhar sentimentos e experiências torna-se fundamental. Estar atenta ao presente e consciente do significado de cada momento da vida transforma a preocupação com o futuro (frequentemente visto com ansiedade) ou com o passado (muitas vezes lembrado com pesar e culpa). Combinando pensamentos positivos, estilo de vida saudável e tratamentos adequados, muitas mulheres estão mudando a experiência da menopausa para melhor.

O cuidado com a aparência é um benefício inquestionável. Podemos compará-lo aos cuidados com nossas casas: damos manutenção, reformamos e adaptamos às necessidades e possibilidades de cada época. Afinal ninguém saudável quer morar ou conviver numa casa abandonada e detonada !!! Nesse sentido, os exercícios físicos são fundamentais e devem ser praticados rotineiramente pelo menos três vezes por semana. Melhoram a saúde, a aparência física, a auto-estima e o humor. As caminhadas, a natação e a dança ajudam a fortalecer músculos e ossos. A Yoga, o Pilates e técnicas de relaxamento e alongamento ajudam as pessoas a ficarem tranqüilas e com movimentos mais flexíveis. Ainda, o uso de roupas leves e a permanência em ambientes frescos e ventilados contribui enormemente para o bem-estar.

Com a idade o metabolismo se torna lento, e deve então ser ativado com refeições mais leves, mais freqüentes e uma boa hidratação. A dieta deve ser balanceada, rica em fibras. É preciso ingerir pelo menos 1 litro de água por dia, de preferência fora do horário das refeições principais e especialmente após exercícios físicos. A utilização do cálcio e vitamina D é de suma importância para a prevenção de osteoporose. O tabagismo e o excesso de bebidas alcoólicas deve ser evitado. Além disso, as doenças já existentes devem ser tratadas adequadamente.

A busca do prazer nas atividades cotidianas, nos relacionamentos e na vida sexual deve ser uma constante.

Com a idade, a sexualidade também muda. O entendimento destas mudanças pode tornar a vida sexual ainda melhor e mais prazerosa. O conhecimento do próprio corpo, sem preocupação com a própria performance ou a do companheiro, leva a uma maior intimidade possibilitando o prazer no relacionamento. A sexualidade mais lúdica e sem pressa pode contribuir para o enriquecimento da vida pessoal e íntima.

Ao contrário do que muita gente pensa, todos os sintomas e as conseqüências da carência hormonal no climatério podem e devem ser tratados, com orientação médica, pela terapia de reposição hormonal, ou seja, o tratamento com administração de hormônios que antes eram produzidos pelos ovários. A terapia de reposição necessária basicamente é a administração de estrogênios. A progesterona só deve ser prescrita nas mulheres que têm útero.

Depois de iniciado o tratamento com hormônios, dentro de duas ou três semanas as ondas de calor e os distúrbios do sono começam a diminuir. Os sintomas vaginais adversos também diminuem e o envelhecimento da pele é retardado. A terapia de reposição hormonal deve ser realizada no momento adequado, a chamada janela de oportunidade. O uso de terapia hormonal previne também alterações decorrentes da perda estrogênica mais prolongada, como o enfraquecimento dos ossos.

Os estrogênios podem ser administrados através da pele com adesivos transdérmicos, ou gel transdérmico, por via oral com administração de comprimidos ou por cremes vaginais. O tratamento por via transdérmica evita a passagem inicial pelo fígado, com menor probabilidade de alterar os fatores de coagulação de sangue. Os cremes vaginais são muito úteis no tratamento dos sintomas locais tais como a secura vaginal e previnem problemas urinários, mas não têm efeito no restante dos sintomas. A progesterona pode ser prescrita via oral, através de comprimidos, por via vaginal, ou pode ser administrada através do endoceptivo de levonorgestrel (DIU de progesterona). Este é colocado dentro do útero, tem grande eficácia na proteção uterina, e libera uma menor quantidade de progesterona na corrente sanguínea, reduzindo os efeitos colaterais.

A tibolona, uma combinação de estrogênio, progestogênio e androgênio, é uma medicação hormonal que tem sido usada em terapia de reposição hormonal com melhora do humor e libido. O tratamento com testosterona tem sido recomendado em alguns casos associado ao estrogênio para melhorar a libido, pois em algumas mulheres a carência de androgênio leva a uma redução do interesse sexual e da disposição física geral.

Em mulheres com sintomas climatéricos, com contra-indicação para a reposição hormonal, pode-se usar medicação local para melhorar a saúde uro-genital e com isso evitar dor nas relações sexuais e queixas urinárias. Tratamentos não hormonais que aliviam as ondas de calor, a insônia e a depressão devem ser utilizados.

O tratamento de reposição hormonal não faz crescer pêlos, não engorda e não é a causa primária de câncer. Os trabalhos científicos mostram que o uso de “hormônios naturais” ou fitoestrogênios têm ação semelhante aos placebos. Portanto não melhoram os sintomas climatéricos.

O tratamento para o climatério, como qualquer outro tipo de tratamento de saúde, não pode ser iniciado por indicação de amigas, vizinhas ou parentes. A melhor forma de tratamento deve ser sempre resolvida junto ao médico. O controle semestral ou anual com o ginecologista deve ser uma regra de ouro na vida de uma mulher saudável.

O climatério é um acontecimento natural, e uma abordagem holística desta fase melhora sensivelmente a qualidade de vida. Uma vez reconhecidas, as mudanças devem ser vivenciadas sem angústia. Elas podem até mesmo ser estimulantes! Esta fase pode ser vista como um novo começo, com um imenso horizonte de oportunidades!

Ana Lúcia Ribeiro Valadares
Médica Ginecologista, Pós Doutoranda em Ginecologia na UNICAMP
Presidente do Comitê de Climatério da SOGIMIG
Delegada estadual de Minas Gerais da Sociedade Brasileira do Climatério (SOBRAC)

FONTE:  SOGIMIG.

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